SEMPRE MENINA
No início da vida
A criança é recebida
Como um presente do infinito
E a abundância
De dependência e ignorância
Torna tudo mais bonito.
Para se expressar
Não reluta em chorar
Para com o choro matar a fome
Acha tudo interessante
Vê dois rabos no elefante
Um fininho e outro enorme.
Ri ao ver uma cobra
Que reta e torta
Se arrasta rápido demais
E estando intrigada
Avisa a mãe inconformada:
Mãe, tá fugindo o cinto do papai!
Fica muito deprimida
Quando uma formiga
É pisada por um adulto
Faz uma cova para ela
E a cobrindo espera
Que ela brote como arbusto.
Monta no cachorro
E se acaba em choro
Por não dominá-lo
E não consegue entender
Porque o bicho não quer comer
Capim igual cavalo.
Os anos passam bem rápido
E logo o tempo dramático
Revela no espelho uma velhinha
Sentada numa cadeira de rodas
Sem dentes e com pele rugosa
Aparentemente falando sozinha.
Usa fralda como se fosse
Ainda bebê que chora por doce
E por um pouco de atenção
E assim se sente novamente menina
Pois a vida mortal termina
E ela nasce noutra dimensão.
Eduardo de Paula Barreto
14/12/2011