SECA E ALENTO

 

Não chove no sertão,

A terra enrugada envelhece.

Não surgem mais calos nas mãos,

Não se planta, não se cozinha, não se tece.

 

Não chove no sertão,

A menina se pendura na esquina.

Na luxúria, falsa alegria, devassidão,

Segue regando a planta da ruína.

 

Não chove no sertão,

Aumenta o número de preces,

São intensos os pedidos de perdão,

Evapora a lágrima, mas como chuva não desce.

 

Não chove no sertão,

O moribundo se considera alguém de sorte,

Pois pagou o preço para a exaltação

E agora vê alento na certeza da morte.

 

Eduardo de Paula Barreto