‘SÃO PAULO, SENHORA MODERNA’
Mãe é aquela que cria, não a que apenas dá à luz
Essa cidade é mãe de tantos que acolheu
Os anos passaram, as coisas mudaram
Mas ela nunca envelheceu.
Onde eu subia nas árvores para roubar laranjas
Como um pequeno infrator
Hoje escalo as maiores alturas
Espremido num elevador.
Onde crescia a grama teimosa
E o mato era bem alto
Hoje existem calçadas charmosas
E um escuro tapete de asfalto.
São Paulo cresceu, se desenvolveu
Mas manteve a sua essência
E apesar da sua avançada idade
Tornou-se importante referência
E o povo acolhido por ela
Comemora seu aniversário com festa e reverência.
Agora que completa 450 anos
Com toda grandeza que tem
Permita-me então me curvar aos seus pés
E lhe dar os meus sinceros parabéns.
Dizer que não existem problemas
Seria uma afirmação mentirosa
Mas pensar em você representa ir ao jardim
Desprezar os espinhos e fitar só as rosas.
Cidade tão tolerante
Que abriga sem restrições
Pessoas de todos os cantos
Raças, cores, ideologias e religiões.
Cada bairro tem sua própria história
Nessa cidade não existe tédio
Em poucos minutos se vai à Europa
Ásia e até ao Oriente Médio.
Por mais curioso que pareça
Ela cresce, mas preserva suas raízes
Se formos para Parelheiros
Lá encontraremos até índios felizes.
Olhando dos prédios mais altos
São Paulo se perde no horizonte
Cruza rios, córregos, lagos
E ultrapassa os inúmeros montes.
O privilégio é tão grande
Que temos até uma porta para o céu
Ela está sempre aberta esperando a gente entrar
Basta para isso subir as trilhas ou ruas
E chegar ao pico do Jaraguá.
Apesar do trabalho árduo
Esse povo é feliz
Ele anda pelas ruas da cidade
Sem saber se está em Londres, Tókio ou Paris.
A velocidade do seu crescimento
Não a deixa descansar
Seu viver é alucinante
Pois o futuro não pode esperar.
Quem me dera ter braços gigantes
Para fazê-la parar
Nem que fosse por um instante
Só para poder lhe abraçar.
Eduardo de Paula Barreto
Publicado em 19 de janeiro de 2004 no jornal O Estado de São Paulo, p.a2