RELÓGIO E RÁDIO
Muitos migrantes que dormiam em rede,
Aqui em São Paulo veneram o trovão,
Pois foi por causa da seca e da sede
Que tiveram que deixar o sertão.
Abandonaram a terra rachada
E por não terem dinheiro para condução,
Viajaram num pau-de-arara
Deixando para trás pai, mãe e irmão.
Trouxeram uma muda de roupa
E um monte de sonhos no peito,
Então chegaram nesta cidade louca,
Mas só o sotaque lhes tirou o respeito.
Andaram de obra em obra
Procurando um trabalho braçal,
Se contentaram com qualquer sobra
Mesmo labutando como um animal.
O relógio e o rádio, que grande vitória!
Um barraco na favela sem tranca nem cerca
E a família do Raimundo no sertão todo dia ora
Para que ele possa também tirá-los da seca.