RELÓGIO E RÁDIO

 

Muitos migrantes que dormiam em rede,

Aqui em São Paulo veneram o trovão,

Pois foi por causa da seca e da sede

Que tiveram que deixar o sertão.

 

Abandonaram a terra rachada

E por não terem dinheiro para condução,

Viajaram num pau-de-arara

Deixando para trás pai, mãe e irmão.

 

Trouxeram uma muda de roupa

E um monte de sonhos no peito,

Então chegaram nesta cidade louca,

Mas só o sotaque lhes tirou o respeito.

 

Andaram de obra em obra

Procurando um trabalho braçal,

Se contentaram com qualquer sobra

Mesmo labutando como um animal.

 

O relógio e o rádio, que grande vitória!

Um barraco na favela sem tranca nem cerca

E a família do Raimundo no sertão todo dia ora

Para que ele possa também tirá-los da seca.

 

Eduardo de Paula Barreto