PEREGRINO
(cordel com 18 estrofes)
Cedo deixou sua casa,
Havia muito que explorar,
Era menino pobrezinho, sem nada,
Saiu decidido a não voltar.
Não havia brigado com os pais
Nem era vítima de qualquer desilusão,
Apenas queria algo mais
Além do que podia tocar com as mãos.
Acreditava que existia um homem
Que era muito respeitado
Pela sua capacidade de vencer a fome
E de ter o corpo levitado.
Já muito distante de sua morada
Com os pés feridos, cansado e faminto,
Olhou ao redor e numa queda inesperada
Tombou diante de pessoas que vinham vindo.
Foi acolhido e alimentado,
Recebeu carinho e as suas roupas lavadas,
Teve os ferimentos tratados
E logo foi embora sem explicar nada.
No caminho encontrou um velho viajante
Que há muito caminhava tranqüilo,
Havia brilho em seu semblante
E ele se pôs a falar com o menino:
— Por que tão pequeno garoto
Se propõe a andar desprendido do medo,
Não teria em seu lar mais conforto
Entre os irmãos e os seus brinquedos?
Então o menino pensativo falou:
— Certa vez tive uma revelação
Na qual um sábio me convidou
Para sair em busca da exaltação.
O viajante ficou espantado
Diante de tanta determinação,
Pediu para que o menino caminhasse ao seu lado,
Pois ele também buscava a salvação.
Mas o menino não pôde atendê-lo,
Disse que deveria ser solitária a sua missão,
Se despedindo com um forte abraço no velho,
Continuou a sua peregrinação.
Assim se passavam os anos
E o menino aprendia
E em meio a pensamentos sãos e insanos
Aos poucos percebia:
— Se o sábio dos meus sonhos antigos
Era velho quando se manifestou
Agora que sou homem crescido
Será que estará vivo aquele meu professor?
Nunca mais sonhou com o velho culto
O que lhe trouxe decepção,
Reconheceu que tudo foi fruto
Da sua própria imaginação.
Talvez ele tivesse se dividido
E numa simples projeção
Em seu cérebro criou um amigo
Que manifestou-se em visão.
Duas décadas se passaram
E ele voltou para a casa dos pais
Os quais o perdoaram
E pediram para que não os abandonasse mais.
— Como poderei deixá-los
Se o sábio que eu pretendia encontrar
Fala por mim quando falo
E está em mim e em nenhum outro lugar.
— Minha jornada foi longa,
Com sofrimento consegui entender
Que não é em outra alma que se encontra
A sabedoria que se espera ter.
— Agora sou a fonte da minha própria doutrina,
Sou o guia que me conduzirá,
Não mais irei longe, apenas olharei para cima
E terei toda orientação que precisar.
Eduardo de Paula Barreto