O CEGO
Com os pés sobre brasas
Flagelo de um penitente
Grito de dor que extravasa
A dor de cada bolha que vaza
Chora, mas sofre contente.
Martírio concluído
Sensação de missão cumprida
E ao avaliar os pruridos
Eleva aos Céus os sentidos
Provou ser alma agradecida.
E quase sem poder caminhar
Sorrindo é conduzido para casa
É homenageado por quem o viu se sacrificar
E orgulhoso começa a contar
O que recebeu de Deus como graça:
— Fui um homem descrente
Com os olhos voltados aos bens materiais
Me julgava superior a toda gente
Era avaro, egoísta, cruel e prepotente
Até que ferindo os meus olhos não pude
enxergar mais.
— A escuridão me permitiu ver
Coisas que jamais tinha visto
Então pude reconhecer
Que não tem sentido viver
Sem a presença de um guia amigo.
— Deus não me deu de volta a visão
Mas deu-me uma lição para a vida inteira
Agora verei tudo com o coração
A todos chamarei de irmãos
A graça que recebi foi a cegueira.
Eduardo de Paula Barreto