O BILHETE

 

O vento bate na mesa

Do apartamento no vigésimo andar

E devido à sua leveza

Um papel se põe a voar.

 

Ele passa pela janela aberta

E ganha as alturas,

Leva palavras de alerta,

Mas sem nenhuma assinatura.

 

  Nas redondezas todos os moradores

Abrem as janelas dos seus apartamentos

Esperando ser os descobridores

Do segredo trazido pelo vento.

 

Enquanto uns aguardam sentados,

Outros se põem a correr,

Caminham por sobre os telhados,

Sedentos por saber.

 

Quanto mais se acotovelam,

Mais alto voa o papel,

Mais pessoas se aglomeram

E mais curiosos fitam o céu.

 

Um pequeno garoto tem uma idéia,

Adaptando um saquinho em sua pipa

A lança diante da platéia

E deixa que o seu destino o vento decida.

 

Ela é levada para o mesmo lugar

Onde o papel flutua sozinho

E depois de um habilidoso empinar,

Ele o acomoda no saquinho.

 

  Diante de olhares atentos

O garoto traz o papel às suas mãos,

O olha por um longo momento

E então lê a declaração:

 

‘O saber é um pássaro que voa livremente,

Mas que não pousa em qualquer lugar,

Só faz ninho naquela mente

Que sabe como o alimentar’.

 

Eduardo de Paula Barreto