MEU PAI
É coisa muito comum ter um pai,
Principalmente quando se tem pouca idade,
Mas se inesperadamente ele se vai,
Tudo fica confuso e surge a contínua saudade.
O meu era barbeiro, com um nome diferente, Elicardes,
Deixou a Bahia quando menino e veio com a cara e com a coragem.
Trabalhou em vários salões em São Paulo e em outras cidades,
Mas foi em São Lourenço, Minas, que encontrou paragem.
Aos vinte e três anos de idade conheceu uma linda moça de dezoito,
Logo Nilza e Elicardes se apaixonaram,
Tirando por mim, acho que meu pai era muito afoito,
Pois depois de um ano de namoro eles se casaram.
Com o passar dos anos surgiram três crianças bem gordinhas,
Primeiro a Nilcea, depois o Edivaldo e então eu cheguei.
Já morando em São Paulo, num quarto e cozinha,
Crescemos com modéstia, mas tendo o meu pai como nosso rei.
O limitado espaço da casa nos mantinha sempre juntos,
Meu pai nos reunia para contar histórias da bíblia.
Vivíamos felizes naquele nosso pequeno mundo
E ouvir as novelas do rádio era hábito de todo dia.
Meu pai não era religioso, mas nunca vi ninguém tão fervoroso assim,
Acreditava no poder de Deus e nos ensinava a ter dignidade.
Ele tinha habilidades de cura que chegou a empregar em mim,
Nos faltavam recursos, mas nunca faltou-nos amor nem amizade.
A rotina de meu pai era ir de casa para o trabalho e do trabalho para casa,
Não parava em nenhum bar, porque achava que isso não seria um exemplo bom.
Em casa ele se apegava à família que ansiosamente o esperava
Para ouvi-lo contar histórias e tocar o seu velho violão.
Quando eu tinha dezesseis anos sofri um golpe mortal,
O meu pai, aquele que era o meu rei e o meu amigo do peito,
Estava caído na rua, inerte, vítima de um derrame cerebral,
Foi socorrido e tratado, mas mesmo assim ficou preso a um leito.
Depois do segundo derrame foi levado para casa
Com o lado esquerdo do corpo paralisado,
Ele me dizia que queria voltar a trabalhar, pois era tudo o que ele precisava,
Eu o consolava pedindo paciência e fazendo a sua barba o animava.
Dois meses haviam passado desde que o primeiro derrame o acometeu
E o Universo impiedoso não ouviu a prece de um filho aflito.
Logo o terceiro derrame, agora fulminante, ocorreu,
Foi o que então levou o meu querido pai para o infinito.
Guardo na alma as lembranças de sua última declaração de amor
Quando deitado na cama chamou minha mãe de querida
E falou com carinho, com a pouca força que lhe restou:
— Nilza, você foi a única mulher da minha vida.
Ele se foi, mas ficaram as lembranças, o amor e o eterno carinho
E sempre me lembrarei das histórias e de tudo o que ele dizia.
Um dia sei que estaremos juntos, ele não estará mais sozinho
Porque o verdadeiro amor vai eternizar os laços da minha família.
Eduardo de Paula Barreto