ETERNO MOMENTO
Bom dia
Dona
Maria,
Mas
que alegria
Vê-la
chegar.
Nunca é tarde
Seu Padre,
Peço que não faça alarde,
Mas vim me confessar.
Que
beleza
E
que grande surpresa
Tê-la
aqui na Igreja
Nesta
manhã de verão!
É bondade vossa,
Mas não faça troça,
Pois vim lá da roça
Com o coração na mão.
Em submissão
Faço a minha confissão
Com a alma em contrição
Esperando que Deus me abençoe
E tire de mim o peso,
É por isso que rezo
E me entrego
Para que Deus me perdoe.
Outro dia pequei
Quando me deparei
Com o homem-da-lei
No meu portão.
Ele pediu para entrar
E me questionar
Para ver se eu o podia ajudar
Numa investigação.
Depois dos questionamentos
Ele ficou um tempo
Do lado de dentro
De minha residência.
Disse ser um homem sozinho
E com falta de carinho,
Então se aproximou devagarinho
E eu cedi às concupiscências.
Depois que ele foi embora
Eu pensei: E agora,
Pois já está na hora
Do meu marido chegar!
Ele sempre foi tão sincero
E tudo o que mais quero
É manter o elo
Que criamos no altar.
Eu tenho mantido segredo,
Mas estou com medo
De ainda cedo
Ser mandada para o inferno,
Pois pelo meu marido ser fiel
Jamais irei para o céu
E minha alma ficará ao léu
Vagando num sofrimento eterno.
Para
livrá-la desta agonia
Quero
que todo dia
Reze
dez ave-marias
E
abstenha-se do pecado,
E
para obter livramento
Demonstre
arrependimento
Também
confessando a tempo
O
seu deslize ao seu amado.
Então ela volta para casa
E extravasa
O segredo que em brasa
Fere o seu coração
E o marido pacientemente
Ouve atentamente
E parece indiferente
Ao não esboçar nenhuma reação.
O marido a conforta
Dizendo: Não me importa
Se a sua vida é torta
Ou se vive em retidão,
Mas você carregará consigo
A lembrança de ter me traído
E assim ter destruído
A base da nossa relação.
Continuaremos casados,
Mas não mais ficaremos deitados
Lado a lado
Como manda a tradição.
De hoje em diante
Não seremos mais amantes,
Mas manteremos o convívio constante
Vivendo apenas como irmãos.
Eles foram se tolerando
Enquanto o tempo ia passando
E seus cabelos brancos ficando
E a pele tornando-se enrugada
E no fim do seu tormento
Maria descobriu que o arrependimento
É água que lava o pecador por dentro,
Mas que não apaga as cicatrizes deixadas.
EDUARDO DE PAULA BARRETO