CAMELÔ CIDADÃO
Bom tempo aquele quando eu era registrado
Acordava bem cedo e saia de casa apressado
Pegava o ônibus cheio para não chegar atrasado
Me dedicava ao trabalho para não ser dispensado.
Se perdesse o emprego não teria tanta preocupação
Antigamente era mais fácil se arranjar uma ocupação
Mas as coisas mudaram tudo ficou bem mais difícil
E conseguir um emprego hoje é uma missão quase impossível.
Essa nova conjuntura me pegou desprevenido
Houve um corte na empresa e eu fui despedido
Agora eu saía cedo, mas com outro objetivo
Com jornal na minha mão eu procurava um serviço.
Chegava em casa com o semblante deprimido
Procurava me isolar, evitava meus amigos
Minha mulher fazia tudo para tentar me animar
Mas o espaço vago na despensa era duro de encarar.
Depois de ver as carinhas tristes das crianças
Reconheci que eu era a sua única esperança
A minha índole não me permitia cometer deslizes
Mas era minha obrigação deixá-los felizes.
Depois de meses procurando um novo emprego
Eu desisti e entrei em grande desespero
Minha mulher olhava para mim com certo medo
De que a tristeza me levasse daqui mais cedo.
Sem dinheiro para o ônibus eu saí andando a pé
Por não ter comido me senti fraco e passei mal
Fui amparado por um camelô que disse: – Tenha fé
Pois sempre há uma vaga no mercado informal.
Passei então a trabalhar informalmente
Vendendo roupas nas ruas da Lapa
Mas trabalhava sempre atenciosamente
Para não acontecer de perder tudo para o rapa.
Me via sempre retratado na televisão
Como um alguém que era um estorvo para a cidade
Mas eu sabia que ainda era um bom cidadão
Com o desejo de contribuir com a sociedade.
Ser um camelô não foi minha opção
Eu fui levado apenas pela necessidade
Mas peço: – Não me confundam com um ladrão
Me permitam ser tratado com dignidade