CAMELÔ CIDADÃO

 

 

Bom tempo aquele quando eu era registrado

Acordava bem cedo e saia de casa apressado

Pegava o ônibus cheio para não chegar atrasado

Me dedicava ao trabalho para não ser dispensado.

 

  Se perdesse o emprego não teria tanta preocupação

Antigamente era mais fácil se arranjar uma ocupação

Mas as coisas mudaram tudo ficou bem mais difícil

E conseguir um emprego hoje é uma missão quase impossível.

 

Essa nova conjuntura me pegou desprevenido

Houve um corte na empresa e eu fui despedido

Agora eu saía cedo, mas com outro objetivo

Com jornal na minha mão eu procurava um serviço.

 

Chegava em casa com o semblante deprimido

Procurava me isolar, evitava meus amigos

Minha mulher fazia tudo para tentar me animar

Mas o espaço vago na despensa era duro de encarar.

 

Depois de ver as carinhas tristes das crianças

Reconheci que eu era a sua única esperança

A minha índole não me permitia cometer deslizes

Mas era minha obrigação deixá-los felizes.

 

Depois de meses procurando um novo emprego

Eu desisti e entrei em grande desespero

Minha mulher olhava para mim com certo medo

De que a tristeza me levasse daqui mais cedo.

 

Sem dinheiro para o ônibus eu saí andando a pé

Por não ter comido me senti fraco e passei mal

Fui amparado por um camelô que disse: – Tenha fé

Pois sempre há uma vaga no mercado informal.

 

Passei então a trabalhar informalmente

Vendendo roupas nas ruas da Lapa

Mas trabalhava sempre atenciosamente

Para não acontecer de perder tudo para o rapa.

 

Me via sempre retratado na televisão

Como um alguém que era um estorvo para a cidade

Mas eu sabia que ainda era um bom cidadão

Com o desejo de contribuir com a sociedade.

 

Ser um camelô não foi minha opção

Eu fui levado apenas pela necessidade

Mas peço: – Não me confundam com um ladrão

Me permitam ser tratado com dignidade

 

Eduardo de Paula Barreto