AS DOLOROSAS CÁRIES DE UM BANGUELO
Ele foi ao cinema e viu um cartaz
interessante
O tema lhe pareceu bem singelo
Lá estava escrito em letras garrafantes:
“As dolorosas cáries de um banguelo”.
Pagou, entrou e sentou-se com curiosidade
Olhou ao redor e percebeu que estava
sozinho
Achou estranho, pois apesar de tanta
publicidade
Era hora do filme começar e os lugares
estavam vazios.
De repente as cortinas se abriram
E a projeção finalmente começou
Era a estória de um homem imponente
Que durante toda a vida os outros humilhou.
Mas as coisas mudaram e ele ficou em
dificuldades
Chegou a ser ajudado até pelas vítimas de
suas torturas
Aqueles que relevaram e em pura
solidariedade
Juntaram seus poucos trocados para comprar
uma dentadura.
Deitado na cama, doente, sendo cuidado
diariamente
Demonstrava arrependimento por tudo o que
fez
Mas, por mais que ouvisse: — Esqueça o
passado, pense no presente
Ele não conseguiu sobreviver mais do que um
mês.
O remorso foi como um vírus fatal
De uma dor que causou icterícia deixando-o
amarelo
Ele morreu de um invisível mal
Algo como a dor das cáries de um banguelo.
Eduardo de Paula Barreto