AS PEDRAS

 

Ouço o clamor das pedras,

Mas as pedras não falam,

São personagens discretas

Que procuram o poeta

E assim desabafam:

 

— Só você nos entende

E ouve a nossa voz,

Sofremos nos dias quentes,

No frio trememos intensamente

E as pessoas pisam em nós.

 

— Enfeitamos os litorais

E somos tapetes nas corredeiras,

Às vezes somos sobrenaturais

E em outras somos letais

Quando municiamos as atiradeiras.

 

— Talvez não sejamos nada para você,

Algo sem importância nem função,

Mas sabemos que irá nos perceber

Se uma montanha se romper

E lhe visitarmos como lava de vulcão.

 

— Mas não tenha isso por ameaça,

Pois jamais lhe faríamos nenhum mal,

Mas algo queremos que faça,

Saia proclamando nas praças

Que nós lhe advertimos sobre o final.

 

— E para que não haja uma revolta no planeta

Fazendo com que tudo seja destruído,

Sejam todos como o poeta que toma a caneta

E eterniza em tinta azul ou preta

O fruto dos seus sensíveis ouvidos.

 

Eduardo de Paula Barreto